Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Felicidade Clandestina

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

 

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía “As reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato.

 

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

 

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

 

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

 

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

 

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

 

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

 

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

 

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

 

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.


Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

 

Clarice Lispector

 

Este conto faz parte do livro “Felicidade Clandestina e outros contos”, Editora Rocco, 1998.

 

Retirado de Conti Outra

publicado às 20:13

Cortesia de joaonasipereira/jdact
Cortesia de joaonasipereira/jdact
«Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer. - Levanta, ó dono das preguiças. É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo: -Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos. -Conversa de malandro... - Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do pretoE, afora isso, eu só presto é para viver... Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza. - Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher... - Mulher, eu? - Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira. - Que quer vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir. Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:
 - Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida. - A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não Deus...
Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações. - Não é verdade, Dona Luarmina? A senhora sabe essas línguas da nossa genteMe diga, minha Dona: qual é a palavra para dizer futuro? Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África. Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. Então eu me suficiento do actual presente. E basta. - Só eu quero é ser um homem bom, Dona. - Você é mas é um aldrabom.
A gorda mulata não quer amolecer conversa. E tem razão, sendo minha vizinha desde há tanto. Ela chegou ao bairro depois da morte de meus pais, quando herdei a velha casa da família. Nessa altura, eu ainda pescava em longas viagens, semanas de ausência nos bancos de Sofala. Nem notava a existência de Luarmina. Também ela, logo que desembarcou, se internou na Missão, em estágio para freira. Ficou enclausurada nessas penumbras onde se murmura conversa com Deus. Só uns anos mais tarde ela saiu dessa reclusão. E se instalou na casa que os padres lhe destinaram, bem junto à minha morada. Luarmina costureirava, era seu sustento. Nos primeiros tempos, ela continuava sem se dar às vistas. Só as mulheres que entravam em seus domínios é que lhe davam conta. No resto, me chegavam apenas os perfumes de sua sombra. Um dia o padre Nunes me falou de Luarmina, seus brumosos passados. O pai era um grego, um desses pescadores que arrumou rede em costas de Moçambique, do lado de 1á da baía de S. Vicente. Já se antigamentara há muito. A mãe morreu pouco tempo depois. Dizem que de desgosto. Não devido da viuvez, mas por causa da beleza da filha. Ao que parece, Luarmina endoidava os homens graúdos que abutreavam em redor da casa. A senhora maldizia a perfeição de sua filha. Diz-se que, enlouquecida, certa noite intentou de golpear o rosto de Luarmina. Só para a esfeiar e, assim, afastar os candidatos.
Depois da morte da mãe, enviaram Luarmina para o lado de cá, para ela se amoldar na Missão, entregue a reza e crucifixo. Havia que arrumar a moça por fora, engomá-la por dentro. E foi assim que ela se dedicou a linhas, agulhas e dedais. Até se transferir para sua actual moradia, nos arredores de minha existência.
Só bem depois de me retirar das pescarias é que dei por mim a encostar desejos na vizinha. Comecei por cartas, mensagens à distância. À custa de minhas insistências namoradeiras Luarmina já aprendera as mil defesas. Ela sempre me desfazia os favores, negando-se. - Me deixa sossegada, Zeca. Não vê que eu já não desengomo lençol? - Que ideia, Dona vizinha? Quem lhe disse que eu tinha essa intenção? Todavia, ela tem razão. Minhas visitas são para lhe caçar um descuido na existência beliscar-lhe uma ternura. Só sonho sempre o mesmo: me embrulhar com ela, arrastado por essa grande onda que nos faz inexistir. Ela resiste, mas eu volto sempre ao lugar dela. - Dona Luarmina, o que é isso? Parece ficou mesmo freira. Um dia, quando o amor lhe chegar, você nem o vai reconhecer... - Deixe-me, Zeca. Eu sou velha, só preciso é um ombro.
Confirmando esse atestado de inutensílio, ela esfrega os joelhos como se fossem eles os culpados do seu cansaço. As pernas dela da maneira como incham, dificultam as vias do sangue. Lhe icebergam os pés, a gente toca e são blocos de gelo. E ela sempre se queixa. Um di4 aproveitei para me oferecer: - Quer que lhe aqueça os pés? Arrepiando expectativa, ela até aceitou. Até eu fiquei assim, meio desfisgado, o coração atropelando o peito. - Me aquece, Zeca? - Sim, aqueço mas... pela parte de dentro». 
In Mia Couto, Mar me quer, ilustrações de João Nasi Pereira, Editorial Caminho, 2000, ISBN 972-21-1374-7.
Retirado de Montalvo e as ciências do nosso tempo

publicado às 22:29

PARA QUE CONSTRUIR UM TEMPLO INVISÍVEL?, de Henry Miller

 

Por volta  do meio dia, Mara telefonou. A conversa deve ter durando um quarto de hora. Pensei que não desligaria nunca mais. Disse que estivera relendo minhas cartas; algumas delas tinha lido em voz alta para sua tia, isto é, parte de algumas delas. (Sua tia dissera que eu devia ser um poeta.) Estava preocupada com o dinheiro que eu tomara emprestado. Teria eu condições de pagá-lo no prazo ou devia ela tentar conseguir um empréstimo? Era estranho que eu fosse pobre - comportava-me como um homem rico. Mas ela se alegrava de que eu fosse pobre. Da próxima vez faríamos um passeio de bonde a qualquer lugar. Não fazia questão de clubes noturnos; preferia uma caminhada no campo ou um passeio pela praia. O livro era maravilhoso - só tinha começado a sua leitura naquela manhã. Por que não tentava eu escrever? Tinha a certeza de que eu podia escrever um grande livro. Ela tinha ideias para um livro e me contaria essas ideias quando voltássemos a nos encontrar. Se eu quisesse me apresentaria a alguns escritores que conhecia - só teriam satisfação em me ajudar...

 

E assim prosseguia ela interminavelmente. Eu estava entusiasmado e preocupado ao mesmo tempo. Preferia que ela colocasse tudo no papel. Mas ela raramente escrevia carta, assim dizia.Por que, eu não podia entender. Sua fluência era maravilhosa. Dizia coisas a esmo, intrincadas, flamejantes, ou deslizava para um limbo de parênteses pavimentado com fogos de artifício - admiráveis feitos linguísticos que um escritor com prática lutaria horas para conseguir. E no entanto suas cartas - lembro o que que tive quando abri a primeira - eram quase infantis.

 

Suas palavras, no entanto, produziam um feito inesperado. Em vez de sair correndo de casa imediatamente depois do jantar naquela noite, como habitualmente fazia, deitei-me no divã no escuro e caí em profundo devaneio. - Por que você não tenta escrever?... Esta era frase que tinha ficado atravessada em minha cabeça o dia inteiro, que se repetia insistentemente, mesmo no momento em que eu  dizia obrigado a meu amigo Mc Gregor pelos dez dólares que conseguira arrancar-lhe depois das mais humilhantes lisonjas e adulações.

 

No escuro comecei a voltar-me para o centro das coisas. Comecei a pensar naqueles dias muito felizes da infância, nos longos dias de verão em que minha me segurava pela mão e levava aos campos para ver meus amiguinhos, Joey e Tony. Quando criança, era impossível penetrar no segredo daquela alegria oriunda de um senso de superioridade. Aquele sentido extra, que nos permite participar e ao mesmo tempo observar nossa participação, parecia-me ser o dom normal de cada um. Eu não tinha consciência de que saboreava todas as coisas mais do que as outras crianças da minha idade. A discrepância entre mim e os os outros só me foi revelada à medida que eu crescia.

 

Escrever, meditava eu, deve ser um ato destituído de vontade. A palavra, como a profunda corrente oceânica, tem que flutuar na superfície de seu próprio impulso. Uma criança não tem nenhuma necessidade de escrever, é inocente. Um homem escreve para destilar o veneno que acumulou devido à sua maneira falsa de vida. Está tentando recapturar sua inocência e no entanto tudo que consegue fazer (escrevendo) é inocular no  mundo o vírus da desilusão. Homem nenhum colocaria uma palavra no papel se tivesse a coragem de viver aquilo em que acreditava. Sua inspiração é desviada na fonte. Se é um mundo de verdade, beleza e mágica que deseja criar, por que põe milhões palavras entre si e a realidade daquele mundo? Por que retarda a ação - a não ser que, como outros homens, o que realmente deseja seja o poder, a fama, o sucesso. "Os livros são ações humanas na morte", disse Balzac. No entanto, tendo percebido a verdade, ele deliberadamente entregou o anjo ao demônio que o possuiu.

 

Um escritor corteja o seu público tão ignominiosamente como um político ou qualquer outro saltimbanco; adora levar os dedos ao grande pulso, receitar como um médico, conquistar um lugar para si mesmo, ser reconhecido como uma força, receber a taça cheia de adulação, mesmo que isso demore mil anos. Ele não quer um novo mundo que possa ser estabelecido imediatamente, porque sabe que jamais seria adequado para ele. Quer um mundo impossível em que seja um soberano fantoche sem coroa dominado por forças totalmente fora do seu controle. Contenta-se em dominar insidiosamente - no mundo fictício dos símbolos - porque a simples ideia de contato com realidades rudes e brutais o assusta. Certo, tem um domínio da realidade maior do que outros homens, mas não faz nenhum esforço para impor ao mundo aquela realidade superior pela força do exemplo. Satisfaz-se apenas em pregar, em arrastar-se na esteira de desastres e catástrofes, um profeta crocitante da morte sempre sem honra, sempre apedrejado, sempre evitado por aqueles que, por mais inadequados que sejam para suas tarefas, estão prontos e dispostos a assumir responsabilidade pelos negócios do mundo. O escritor verdadeiramente grande não quer escrever: quer que o mundo seja um lugar em que possa viver a vida da imaginação. A primeira palavra trepidante que põe no papel é a palavra do anjo ferido: dor. O processo de colocar palavras no papel equivale a tomar um narcótico. Observando o crescimento de um livro sob suas mãos, o autor incha-se com ilusões de grandeza. - Eu também sou um conquistador - talvez o maior dos conquistadores! O meu dia está chegando. Escravizarei o mundo - pela mágica das palavras... Et cetera ad nauseam.

 

A pequena frase - Por que você não tenta escrever? - envolvia-me, como o fizera desde o início, num atoleiro de irremediável confusão. Eu queria encantar, mas não escravizar; queria uma vida mais ampla, mais rica, mas não à custa dos outros; eu queria libertar a imaginação de todos o homens imediatamente porque sem o apoio do mundo inteiro, sem um mundo imaginativamente unificado, a liberdade da imaginação se torna um vício. Eu não tinha respeito por escrever per se, assim como não o tinha por Deus per se. Ninguém, nenhum princípio, nenhuma ideia tem validez por si mesma. O que é válido é somente aquele tanto - de tudo, Deus incluído - que é realizado por todos os homens em comum. As pessoas sempre se preocupam com o destino do gênio. Eu nunca me preocupei pelo gênio: o gênio toma conta do gênio num homem. Minha preocupação sempre se voltou para o joão ninguém, para o homem que se perde na confusão, o homem que é tão comum, tão ordinário, que sua presença nem chega a ser notada. Um gênio não inspira outro. Todos os gênios são sanguessugas, por assim dizer. Nutrem-se da mesma fonte - o sangue da vida. A coisa mais importante para o gênio é se fazer inútil, ser absorvido pelo fluxo comum, tornar-se um peixe de novo e não uma aberração da natureza. O único benefício, refleti, que o ato de escrever podia me oferecer, era eliminar as diferenças que me separavam do próximo. Definitivamente não queria me tornar o artista, no sentido de me tornar algo estranho, algo à parte e fora da corrente da vida.

 

A melhor coisa que há em escrever não é o labor em si de colocar palavra contra palavra, tijolo sobre tijolo, mas as preliminares, o duro trabalho inicial, que se faz em silêncio, debaixo de quaisquer circunstâncias, em sonho assim como acordado. Em suma, o período de gestação. Homem nenhum jamais consegue escrever o que tencionava dizer: a criação original, que está acontecendo o tempo todo, quer a gente escreva ou não escreva, pertence ao fluxo primário: não tem dimensões, forma ou elemento de tempo. Nesse estado preliminar, que é a criação e não o nascimento, o que desaparece não sofre destruição; algo que estava ali, algo imperecível como a memória, ou a matéria, ou Deus, é convocado, e a esse algo nos atiramos como um galho numa torrente. Palavras, sentenças, ideias, não importa quão sutis ou engenhosas, os voos mais loucos da poesia, os sonhos mais profundos, as visões mais alucinantes, nada mais são do que hieróglifos toscos cinzelados em dor e tristeza para comemorar um evento que é intransmissível. Num mundo inteligentemente ordenado não haveria necessidade de fazer a tentativa irracional de registrar tais acontecimentos miraculosos. Na verdade, isso não faria sentido, pois se os homens apenas parassem para refletir, quem se contentaria com a falsificação quando o autêntico está à disposição e ao alcance de todos? Que homem desejaria ligar o rádio e ouvir Beethoven, por exemplo, quando poderia ele mesmo experimentar as harmonias arrebatadoras que Beethoven lutou tão desesperadamente para registrar? Uma grande obra de arte, quando chega a realizar alguma coisa, serve para nos lembrar, ou digamos melhor, para nos pôr a sonhar com tudo aquilo que é fluido e intangível. Vale dizer, o universo. Não pode ser entendida; só pode ser aceita ou rejeitada. Caso aceita, ficamos revitalizados; se for rejeitada, isso nos diminuirá. O que quer que pretenda ser, não o será: é sempre algo mais a respeito de que nunca se dirá a última palavra. Ela é tudo o que nela colocamos devido à fome daquilo que nos negamos cada dia de nossas vidas. Se nos aceitássemos tão completamente assim, a obra de arte, na verdade o mundo todo da arte, morreria de subnutrição. Todo mortal como nós se movimenta sem os pés pelo menos algumas horas por dia, quando os olhos se fecham e o corpo fica de bruços. A arte de sonhar completamente desperto estará à alçada de todo homem um dia. Muito antes disso os livros terão deixado de existir, pois, quando os homens estiverem inteiramente acordados e sonhando, seus poderes de comunicação (uns com os outros e com o espírito que anima todos os homens) serão tão realçados que farão o ato de escrever parecer-se com os grunhidos ásperos e roucos de um idiota.

 

Penso e tomo consciência de tudo isso, deitado sobre a memória obscura de um dia de verão, sem ter chegado a dominar, ou sem ter mesmo displicentemente tentado dominar a arte do hieróglifo tosco. Antes mesmo de começar fico enojado com os esforços dos mestres consagrados. Desprovido da habilidade e do conhecimento para fazer pelo menos um portal na fachada do grande edifício, critico e lamento a própria arquitetura. Se eu fosse apenas um minúsculo tijolo na vasta catedral desta fachada antiquada, seria infinitamente mais feliz; teria vida, a vida de toda a estrutura, mesmo como uma parte infinitesimal sua. Mas estou do lado de fora, um bárbaro que nem um esboço sabe fazer, quanto mais uma planta do edifício em que sonha morar. Sonho com um novo mundo resplandecente magnífico que desmorona assim que a luz é acesa. Um mundo que desaparece mas não morre, pois basta-me ficar quieto de novo e olhar a escuridão com os olhos bem abertos que ele reaparece... Existe então um mundo em mim que é completamente diverso de qualquer mundo que conheço. Não o julgo propriedade exclusiva minha - só o ângulo de minha visão é que é exclusivo e portanto único. Se falo a linguagem de minha visão singular, ninguém me entende; o edifício mais colossal poderá ser erguido e no entanto permanecer invisível. Este pensamento me atormenta. Para que construir um templo invisível?

 

 Henry Miller

(Sexus; tradução de Roberto Muggiati)

 

 

(Ilustração: Jacek Yerka)

Retirado de Trapiche dos outros

publicado às 20:13

Sedução

 

Julinha tem grafonola – e canta como um pássaro primaveril. Marta levanta dinheiro no banco. Celeste guia automóvel. Cantam em conjunto. Riem em coro.


Noémia impera.


Saem para toda a parte, passeio vai, passeio vem, a que horas poderei falar-lhes sossegadamente? Em casa dançam; dançam no campo. A alegria embriaga-as, excita-as, não param, não comem, desafiam todas as murmurações.


Displicente, atónito, vejo-as chegar, partir. Como proceder, como pensar? Cruzo por momentos os braços e observo-as inocentemente, como se voltasse ao princípio da minha vida. Nada sei. Que estranha filosofi a me trará o seu tumultuoso conviver? Que estará além do muro desta euforia auto-sufi ciente?


Persigo-lhes a sombra sem ser visto, analiso-lhes o rastro de olhos no chão. Sou caixeiro, praticamente da loja de Noémia, a quem dou contas, nada mais. Até quando a resistência do meu furor? Constato que as freguesas me entram pela porta dentro com mais assiduidade (este povo é muitíssimo curioso!) posto que as vendas tendam mesmo a estancar. Certamente por usar da crueldade de transmitir às atrasadas o recado revoltante de Maria Noémia: «Pagam, ou tribunal com elas!»


Ah, este advocacismo ! Expliquei a Noémia a crise duma povoação que não vive senão do ajoujar da agricultura: as lágrimas das mães, o contágio das crianças com a tuberculose voraz dos pais, o socorro urgente necessário, a orfandade, a cólera, sei lá!, quantas circunstâncias que são dor de alma e retalham todos os propósitos, – mas Noémia atalhou-me implacavelmente


– Isso não se cura com esmolas. Quem jamais se apiedou de nós? Esses que nos deviam, menino, são os mesmos que escarneceram de teu pai. São os mesmos que assaltaram a quinta, à sombra das ameaças dos credores. De resto, estava eu a secar-me do outro lado com trabalho, para vocês distribuírem fazendas aqui pelas aldeias! Como te pode caber uma dessas na cabeça?


Vestida de calças masculinas, traçou a perna, puxou, como por hábito, dum cigarro:


«Ouvira bem? Fiados, nem um real!»


O advocacismo tem argumentos, tem leis. No poder, ou na oposição, o advocacismo interpõe-se, agarra, esbulha. Vejam-no em arengas públicas: advoga um socialismo urgente, arroga-se o exclusivo de gritar, de candidatar-se, de vencer. Porém na vida prática, que faz? Esquecido de todas as necessidades do povo, sem planos, sem sacrifícios, ei-lo ao serviço do capitalismo mais sórdido, mais inumano, menos social. Justiça? E vê-la? Tudo retórica, até talvez as minhas próprias palavras! «Nada se remedeia com esmolas? E então?»


Por outro lado, como compreender Noémia, mesmo do ponto de vista religioso? O estado sentimental duma adolescente incomoda-a até às lágrimas; os lares de pai ou mãe inválidos, sem subsídio da lei, sem crime para ninguém, endurecem-na como cimentação. Quer dizer: há sensibilidades que só se derramam por compartimentos, como a água pelos tabuleiros de rega. A inclinação torna-se necessária.
Anoto, desorientado, uma série de futilidades elucidativas.


Marta, por medo dos ratos, dorme com Noémia.


– Medo,?! – intervenho – Que ideia!.
– Não é medo, é impressão... Bole-me com o nervoso. Na primeira noite, um rato enorme não me andava a lamber a chávena?


Celebrámos todos três a pilhéria deste «rato enorme».


Noémia admoesta-me
– Tu namoras a Laide. Vi-a ontem: é um amor de criança.


O meu pensamento riscou orgulhosamente:
«É um amor de mulher... »
– Para um leviano como tu!


Entupi. «Leviano?! Serei eu assim leviano como dizes?»


Estes pequenos episódios desenrolavam-se de dia para dia, de momento para momento, num crescendo de imprevisto que chegava a tolher-me os movimentos defensivos mais legítimos. Quantas vezes fi cara eu amesquinhado e de rosto receoso, contraído!


Marta, durante o chá, servindo-se uma vez desses pequenos bolos de espuma de ovo chamados familiarmente «suspiros», mal levou um à boca, atirou com ingénua malícia:


– Suspiro pela Julinha!
Levando outro:
– Suspiro pela Celeste!


Ao terceiro, inclinando-se para Noémia com meiguice extrema que lhe pôs nos olhos um brilho liquescente extraordinário, murmurou:
– Suspiro pela Senhora D. Noémia, – ao cubo!


Noémia escrevia em revistas femininas, eu presumia-o, tendo a seu cargo, numa delas, o «consultório sentimental». Certa vez, sem que seja meu hábito espreitar, surpreendi-a no corredor a ler um manuscrito a suas pupilas:


«– Aquela rapariga da Figueira, conforme noticiaram os jornais, foi uma vítima da sedução dos homens. É santa e mártir: porque diante da desonra preferiu morrer.»


Noémia tremia, horrorizada. Tornava a viver a tragédia, transmitiu-a a suas amigas. Percebia-se, lá donde emergiam as suas palavras, uma intenção muito firme e decidida.


Segura de que nenhum homem assistia à sua representação, infinitamente triste, acentuou:


«– Alerta, meninas católicas, não se deixem iludir pelo capuchinho vermelho de namoros aparentemente inocentes. Reparem que monstruosidades tamanhas são capazes de cometer os homens! Um noivo atrai a sua própria noiva a uma cilada vil. A infeliz cessa de lutar, quando tem caído extenuada. Pois nesse momento cobarde, (ó céus, que não desabastes sobre a terra negra!) o tirano conspurca-a, arrasta-a canibalescamente para o automóvel e proporciona-a como repasto aos seus amigos!»


O nervosismo de Júlia era excitante. Celeste compunha com o lencinho o borbulhar dos olhos. Desde aí, todas me olhariam com desconfiança, com desprezo, com náusea... Mas eu andava nessa hora com uma fleuma verdadeiramente britânica, pensei: «As minhas mulheres sublevam-se!»


Caminhei para elas despreocupado, desejaria encará-las frente a frente; entretanto o pano, sobre aquela encenação, ainda não caíra. O paroxismo atingiu Noémia, que já não deu por mim. Numa onda de revolta, ergueu repentinamente o busto magro, vestido de negro, e, rígida como eu nunca a vira, tombou nos braços solícitos de Marta. Júlia, Celeste acudiram-lhe, na minha presença, com as suas carícias desajeitadas. Tive também a tentação de desmaiar, mas não com aquela língua negra à dependura escorrendo baba...


Que horror!


Para gáudio e celebração, compram bombons e ponche. Gostam de ponche, que tenho eu com isso? Não as vejo bebê-lo, mas dizem-no diante de mim, à mesa:


– Ontem, quatro garrafas que entornámos! – Pequenas, não foi muito! – aplaudo.
E rejubilam:
– O sr. também gostava, ai não? Vejam lá!
Outro dia passava na rua um cão com o seu dono. Coisa banal... Um rafeiro e um rapaz. Brincavam, acariciavam-se mutuamente como irmãos. A preceptora blagueou para Marta:
– Há alguma diferença entre eles?
A discípula, embevecida:
– Não parece... – e mostrou o canino sobreposto.


Eu, que, repelindo a afronta ao sexo forte, me mostraria quixotesco ou trivial, satisfiz a douta expectativa:
– Há uma diferença: o cão é fiel.


E ambas me acharam uma graça infantil.


Provocava eu próprio as humilhações? a zombaria? Fui arrastado para o inverosímil: transferir-me eu mesmo voluntariamente para o campo mental em que elas se agitam e procuram viver. Aconselhar Noémia? Seria o mesmo que pedir à Lua que nunca se vestisse de quarto minguante. Noémia repudiaria em absoluto, ingratamente, a minha compaixão, o meu auxílio. Pelo contrário: era ela até quem me hostilizava com a insistência dos seus conselhos sobre casos meramente pessoais. Comecei a repontar-lhe. Porquê não olhava para ela? Surpreendida, quis imediatamente dominar-me:


– Eu desconheço-te, Eduardo! Terás tu descido ao nível desta gente? Terás esquecido?...
– Basta! – interrompo-a grosseiramente, batendo a mão na mesa.


Tínhamos acabado de jantar, Noémia levantara-se e preparava-se mais uma vez para despejar sobre mim um acumulado de impropérios, ao fim dos quais, sem dar tempo sequer de defender-me, arrastava Marta abraçadamente (pobre Marta!) e com ela deslizava corredor fora praticando as lamechices do costume.


Desta vez hostilizei-a:
– Em primeiro lugar, que entendes tu por «nível desta gente»?
Noémia pretendia esquivar-se, com determinada mímica ou o que quer que emitia entre-lábios para a discipulazinha.
– Decerto não falavas do nível higiénico, nem económico! – desafiava-a.
Mas Noémia continuava a arredar-se da minha decisão. Eu tinha de enervá-la, de prendê-la pelo insulto ou pela violência:
– Tomaras tu viver moralmente no mesmo nível!
– Olhem como ele está hoje bem educadinho! Querem ver? Mas porquê, ora porquê, menino, diga lá!
– Porque esta gente não tem uma... duplicidade de vida!
– Duplicidade de vida? Que me dizes tu?!


Um pouca intimidado, generalizei:


– Esta gente tem defeitos, tem sobretudo privações. Mas «nível» moral? A cidade está a perder o conceito de moralidade. As convenções sociais prostituíram tudo. Vós já não sabeis o que é nobreza de sentimentos, solidariedade humana, sacrifício pelo semelhante, nem sequer personalidade interior perpetuamente responsável.


– Palavras gastas e ocas e a cantiga do costume. Sabes o que é isso? A tua mania das leituras proibidas...


Protegi o rosto com as mãos à espera do insulto «...com o meu rico dinheirinho, ainda por cima!» Noémia, porém, susteve-se, e apenas lhe reapareceu nos lábios tensos a palavra «duplicidade!»


– Noémia – digo-lhe num apelo de conciliação – porque és assim um temperamento tão complicado?
– Complicado?! – surpreendeu-se. E, pensativa, revestiu-se de súbita modéstia:
– Não. Sou tão simples como qualquer outra.


Uma visível nuvem de tristeza e de silêncio cada vez mais profundo apoderou-se-lhe do pensamento. O círculo nocturno dos seus olhos aumentou. Pela primeira vez eu me senti vitorioso diante de Noémia. Cansadamente e suspirando, retirou-se derreada sobre Marta, e ambas se refugiaram no quarto, fechando-se, como tantas vezes, libertas duma acusação imanente.


«Quem sabe se ela quis apenas afastar a curiosidade? Se foi tudo defensiva simulação?» – ponderei.


Ouviam-se, entretanto, risinhos abafados. Sobre mim, sozinho, desceu imediatamente uma sensação de logro. Noémia, para me vencer, não precisou senão dum pouco de humildade, apesar de tudo disfarçada.


No entanto, o primeiro passo estava dado. Seguiam-se, é verdade, longas horas de abstracção, uma espécie de torpor que me tolhia toda a vontade e só as grandes dores eram sufi cientemente fortes para produzir. A este, outros estados de alma se sucediam. Acudia-me por vezes um desespero inaudito contra a pureza física de Marta, desperdiçada; contra o abandono da pequenina Júlia, ardente; contra Celeste, leitosa e sobranceira, que eu sempre julguei capaz duma traição.

José Marmelo e Silva, In Sedução
Retirado de Contos de Aula

publicado às 17:24

O velho caminhava à sua frente pelo carril do valado, gingando com o peso do reumático, que parecia desconjuntar-lhe o corpo magrizela. Acendera o cachimbo, antes de sair da palhoça, e lá ia a fumegar, contente como um gaio, com a cana de pesca ao ombro e a caixa pintada de verde pendurada na mão. O rapaz tocava a gaita de beiços, levando a sua cana segura pelo antebraço esquerdo, e fingia-se cansado, para que o ferrador ainda se julgasse o mesmo andarilho de outros tempos.


Na véspera tinham preparado em sociedade os remelhões das minhocas, que não faltavam mesmo à porta do barracão – era dar uma enxadada e agarrar não sei quantas. O velho ensinara-lhe a preparar os anzóis e contara-lhe das suas pescas noutros tempos, quando ainda morava em Vila Franca. Sempre que podia, escapava-se para ali. Gostava da Lezíria, tanto como se ali tivesse nascido, e acabara por arranjar aquele casebre para viver com a amante. Ela não era daqueles sítios. Não sabia a sua nação, nem isso importava. Era uma mulher que lhe servia e estava tudo dito.


Iam pescar sem destino, descansar da chateza daquela vida bruta. – Gostava d’ir até ao esteiro do Ruivo, mas é longe, as pernas já não me levam até lá, disse o velho.


– Mas anda que nem um rapaz!
– Lá vens tu... Troco as minhas com as tuas, valeu?


Passaram a uma aberta, o velho farejou de um lado para o outro e achou que podiam ficar ali mesmo. Perto havia um salgueiro de sombra larga, e entre o valado e o rio surgia uma nesga de terra coberta de mostarda e de lírios brancos.


A Mariana preparara-lhes o almoço, uns fritos de bacalhau e azeitonas, e Alcides bem percebera que ela ficara radiante por estar só todo o dia. Gostava de poder espreitá-la, sem que ela soubesse, e ser capaz de compreender o motivo daquela garridice ofensiva. Provocava os homens, passando perto deles e tocando-lhes com o corpo se os via distraídos; deixava-os prenderem-lhe as mãos e beliscarem-lhe os braços e as ancas, sorrindo sempre, com os olhos a entornarem doçura e maldade picante. Sabia que a sua voz os tocava de uma magia sensual, de tal maneira eles se transformavam quando ela falava. E não era bonita, não senhor.


Mas havia nela um misto de candura e de perversão, de frieza calculada e de inocência, que desvairava os homens. Tinha uma boca desmedida, sempre aberta, em sorrisos, talvez para mostrar uns dentes frescos, embora incertos; um nariz pontudo, de ventas sensíveis, como se fossem duas flores inquietas pelo jogo da luz e das sombras; uns olhos talvez feios, pequeninos e travessos, que tanto pareciam quentes, da cor do acaju do seu cabelo liso, como esverdeados e frios, talvez cínicos. E havia aquela covinha marota na fase esquerda, tão atrevida, tão provocadora, que sem ela a Mariana seria uma mulher vulgar, desajeitada mesmo, tamanha magreza se apossara do seu corpo esguio.


– Em que estás a pensar?, perguntou o Mula Brava.
– Em nada.
– Não falavas...
– E o Ti João? Também nada dizia.
– Na minha idade já custa a pensar. A cabeça embrulha-se...


Tinham-se sentado perto de uma seara de trigo já a chegar-se à foice; lutavam nela o verde-tenro e o amarelo da maturidade e ouviam-se as espigas estalar sob a brasa do sol.


– Que pensas tu da Mariana?


Alcides fingiu-se atento para a bóia da sua linha. A maré devia estar na enchente e tornava difícil o perceber se alguma enguia picara o anzol.
– Não ouves, Ruço?
Ele não respondera, convencido de que o velho se arrependeria de repetir a pergunta.
– Que dizes tu da Mariana?... Sim, que é que achas nela?...
– Que é sua amiga.
– Não foi isso que te quis perguntar. Se já viste alguma coisa de mal.


Sim, uma liberdade maior com algum deles. Vão lá tantos!


– Ela brinca com todos. Uma mulher nova precisa de se distrair.
– Que é nova já eu sei, disse o Mula Brava com a voz agressiva. Ela quando veio para a barraca já sabia que eu era velho. Mas fizemos uma jura. E há juras que não se quebram até ao fim.


Ruço de Má Pêlo levantou-se para puxar a cana e deu um grito de entusiasmo.


O velho começou a rir quando viu o anzol a dançar sem nada. O rapaz é que sabia porque premeditara aquela cena.


– As enguias não querem nada comigo, ‘stá visto. O Ti João já apanhou algumas quatro.
– Da primeira vez apanha-se sempre pouco. A gente quando é novato toma tudo a sério e as mãos tremem na cana. Eu tenho a certeza que as enguias lá em baixo sentem na água as nossas mãos a tremer. É como eu lá na barraca. Não vejo. Os olhos quase não me servem. Mas há coisas que tocam na pele da gente, que vêm no ar, assim como o vento e o cheiro da terra ou das flores. O amor é uma coisa assim mais ou menos. Tem cheiro. Cheira como a terra molhada com as primeiras chuvas. E bole nas nossas mãos como as aragens do sul, o vento palmelão, que transtorna o gado nas pastagens.


O rapaz começou a rir, num riso nervoso.


– Tu que te ris é porque sabes alguma coisa, Ruço.


O velho pôs a cana de lado e aproximou-se. Tacteou-lhe os cabelos com as mãos inquietas e puxou-o depois para si, obrigando-o também a levantar-se. A seguir chegou os seus olhos doentes e quase vazios para o rosto do rapaz.


– Tu sabes dalguma coisa, Ruço!, gritou-lhe o Mula Brava, sacudindo-o pela camisa.
– Já lhe disse que não sei, Ti João. E se acha que eu o engano, vou-me hoje mesmo embora. Não gosto de ser ferrador. Quando atravessei o Tejo, nunca pensei ficar ali.
– Hum! Então não gostas de ser ferrador... Porque disseste que sim?
– Tinha fome.
– Não te disse para nunca fazeres coisas de que não gostasses? Isso é pior que ter fome. Fazer o que se não gosta é mil vezes pior do que passar fome. Comias mostarda, comias erva, comias terra...
O velho voltou para junto da sua cana, mas nunca mais a agarrou. Parecia inquieto, voltado para as bandas do Cabo, onde tinha a taberna.
– Se quiseres, vai-te embora. Mas é pena. Eu já não posso viver muito tempo e podias ficar com a oficina. A Mariana é tua amiga... (Caiu um silêncio entre os dois). Não é?!
– Não sei.
– Gostas dela?
– Não, não gosto. Ela podia ser minha mãe. Mas se pensa que alguma vez eu lhe faltei ao respeito...
– Nunca pensei nisso. Mas ela não é a mesma. Mudou há coisa de duas semanas. Fala menos, já não gosta de brincar com os homens. O amor cheira, é o que te digo. Sabes quem é o Chico Malhado?
– Sei.
– Tu estavas a ferrar uma égua do patrão Jaquim. Aquela égua porcelana e desconfiada... Eu cheguei-me à taberna e parei cá fora da porta. Não se ouvia uma mosca. Como sabes, ela fala sempre. Nunca ‘stá quieta. É uma égua roaz. Julguei que os ia apanhar agarrados, mas pra mim foi o mesmo. Estavam longe um do outro, mas era como se as mãos dele fossem do canto da mesa, cá à entrada da porta, até ao balcão, onde ela estava. Eu disse bom dia, e a minha voz fez um eco danado. A minha voz nunca fez um eco daqueles. Ele respondeu-me e tudo ficou quieto. Quieto e pesado. Eu fui direito a ela e custou-me a andar. Parecia que atravessava uma tempestade. Julgo que ainda se não passou nada entre os dois, mas as coisas não vão ficar assim por muito tempo. Ela não é mulher pra isso!


– Talvez não...


João Mula Brava casquinou de troça – talvez troçasse dele.


– Nunca gostei que tivessem pena de mim, Ruço de Má Pêlo! Nem o meu filho.


Foi por causa dela que perdi a sua amizade e nunca me arrependerei disso. Pareço andar aqui por arames, tão magro estou, e velho, e cansado, mas este arame é de aço. Não torce, quebra-se. E quando se quebrar é por uma vez. Pra que diabo preciso eu de uma mulher com esta idade? Não é o que tu perguntas? É o que todos perguntam, eu sei. Tu dormes ao lado da gente e naquela casa é o mesmo que dormires na nossa cama. És capaz de guardar um segredo?


– Pode falar à sua vontade, Ti João. E se quiser, eu ponho-me à tesa com ela, porque enquanto eu estiver à sua beira ninguém fará pouco de si.
– Não, não é isso. Eu ainda sou capaz de me defender. Não tenho medo da morte. E aquela espingarda que lá tenho serve para queimar os miolos a quem calhar. Entendes? Pois é assim mesmo.


O atropelo das palavras tinha-o cansado e ele arfava. Deitou-se sobre a erva com os olhos fechados e continuou a falar.


– Encontrei-a no Porto Alto e achei-lhe graça. Eu vinha numa carrocita que tinha nesse tempo, já lá vão três anos, e parara ali para matar a sede e dar dois dedos de conversa com o meu compadre. Ela guizalhava como é seu costume e queria uma boleia para ir apanhar o comboio. Ofereci-lhe um lugar na carroça, metemo-nos de conversa e combinámos tudo. Eu precisava de uma mulher para companhia, talvez só pra me lembrar de todas que tive. E perguntei-lhe se ela queria viver comigo. «E o que me dá vossemecê?», respondeu ela. Gostei daquela franqueza. Uma mulher nova quando se obriga a fi car ao pé de um homem como eu tem sempre alguma coisa em mira. É melhor jogo franco: pão pão, queijo queijo. Eu disse-lhe: ponho uma taberna em teu nome, trabalho de ferrador, e quando morrer é tudo pra ti. Mas nunca m’enganarás, é só o que te peço. Brinca, conversa e ri, mas nunca m’enganes. E ela jurou-me. Acho que me jurou plas cinco chagas de Cristo. Não sei bem o que ela me disse, mas só interessa a combinação feita. Eu ainda não faltei a coisa nenhuma.


O cão sentara-se entre os dois e lambia as mãos do velho.


– Agora, já vai pra dois anos que não tenho nada com ela. Dormimos juntos e tu sabes bem: já não somos homem e mulher. Tens ficado muitas noites a ouvir.


É ou não verdade? Fala à vontade, Ruço! Já és um homem... e podes dizer essas coisas que não te ficam mal.
– É verdade.


João Mula Brava abriu os olhos e sorriu para o rapaz.


– Mas agora as coisas vão complicar-se. Ela mudou. O Chico Malhado deu-lhe volta à cabeça. Eu sei que é só pra ter a mulher e mais nada. Há muitos a gabarem-se, mas nunca nenhum a teve. Ele julga que dou pasto à eguazinha, mas engana-se. Se a quiser, leva-a com ele e nunca mais me passa à porta. Ou talvez não a leve, porque sou capaz de o baldear antes que isso suceda. Não vou agora em velho deixar algum gajo rir-se de mim. Viste como ela ficou contente por sairmos?


Ela ficou contente, eu sei. Vai tremer sempre com receio que eu lhe apareça de um momento para o outro e nada fará. Mas quer falar com ele, e saber o que ele pensa, e perguntar-lhe...


– Ele é novo, Ti João. Ela talvez não lhe pergunte nada.
– Tens razão.


Levantou-se apressado. Pegou no chapéu e enfiou-o na cabeça.


– É isso o que tu dizes, Ruço. Ele é novo e quem sabe o que lá vai a esta hora.


Tenho passado noites inteiras sem dormir, agarrando-a, porque às vezes penso que se adormeço ela me pode vir cá pra fora... Está agora a aproximar-se o tempo danado pra isso. As noites de Verão. Os dias de Verão. Quando eu era moço, eu desvairava sempre por esta altura.


Pegou na cana e pô-la sobre o ombro; foi buscar a caixa verde, onde tinha as enguias, e deixou-a ao pé do rapaz.


– Fica-te aí, toma banho no Tejo, se quiseres, que eu volto. Já agora peço-te...
– O quê, Ti João?
– Nada. Nunca gostei de pedir coisa nenhuma. Faz o que quiseres. O mundo pra ti é livre. Até logo.


E abalou apressado com o cão atrás de si. Alcides ficou no mesmo sítio até o velho desaparecer na curva do valado e foi depois para a margem do Tejo, à sombra do salgueiro. O calor começava a apertar. Tirou a camisa, estendeu-se na erva e tentou adormecer. Mas as palavras do ferrador tinham-se-lhe agarrado ao sangue. Ele nunca vira a Mariana como naquele momento. Para si ela não era uma mulher. E agora sentia-lhe as mãos.
«O amor cheira», dissera o velho.

Alves Redol, In A Barca dos Sete Lemes
Retirado de Contos de Aula

publicado às 12:18

Pássaros vorázes

 

 

Imagem de aqui

 

Conheci uma senhora cujas palavras fluíam fáceis e insólitas. Ela acreditava que certas mulheres são capazes de voar durante a noite, metamorfoseando-se em vorazes pássaros noturnos. Seduzida pela eloqüência e teatralidade de suas próprias palavras, ela acrescentava eufórica a opinião que tais pássaros noturnos não são apenas mulheres velhas, e que todas são, finalmente, mulheres fatais.

Olhar imperturbável, ela me disse que o vôo noturno é uma característica das "bondosas damas", acrescentando com uma voz trovejante: "Pássaros vorazes de cabeça desmesurada, olhos fixos, bico afiado para a rapina, plumas brancas e garras tortas. Estes pássaros, sejam eles o fruto de uma reprodução entre sua própria raça, criados por um encanto infernal ou ainda, sejam somente velhas senhoras metamorfoseadas, nós os reconhecemos sempre pelos gritos estridente com que amedrontam as noites."

De resto, ela me revelou ter ouvido isso em algum lugar. E eu acreditei. Alguém certamente também acreditou ser uma boa idéia falar sobre o assunto. E ela ficava assim pensativa repetindo estas palavras, com o olhar perdido. Olhar de vingança. Esse era o seu passatempo predileto, sonhar com asas largas que a levariam à distantes províncias e lhe dariam a força de escapar. Ela sonhava em escapar. Escapar dos murros, dos muros, dos gritos, das ironias, dos insultos, das dores e dos silêncios.

Gestos e nomes apoiando os seus contares, numa destas ocasiões ela me falou do escritor que disse que a força das sereias está no silêncio! "No seu silêncio! Pode imaginar pior insulto!?".

Ela me contou também que um conhecido seu, passeando em Montreal às margens do canal e numa noite de lua, entendeu uma voz que perfurou o silêncio do matagal:

"Muitos gostam de acreditar que somos todas iguais, pela nossa voz estridente ou sedutora. Julgam que somos instrumento de perdição, que somos o sonho. Desiludam-se! Somos o rosto cansado das velhas, o rosto apaixonado das jovens. Companheiras dos sonhos, com os animais elegemos nosso lar. Assim, temos uma forma bestial. Vejam aí só o que vocês sabem, pois no entanto, ignoram que mesmo sendo veneração, somos também horror. Horror e veneração.”

Quanto à mim, não sou velha; sou relativamente jovem. Meus urros, vocês não conseguem diferenciá-los no mais claro do dia. Mas quando a noite se desponta no alto dos edifícios cinzentos e que me vem este desejo de correr e gritar e gritar... gritar... e nunca mais parar... e bem, nestes momentos, o meu corpo se contorce, treme... e eu tenho frio, tenho frio, tenho um frio de morrer... e as minhas asas, elas, se armam para cobrir o meu corpo e com estas asas trêmulas escondo a minha cabeça desmesurada, os meus olhos fixos, o meu bico afiado, as minhas plumas e as minhas unhas tortas. Os meus gritos não amedrontam a noite. Enrolo-me em mim mesma, como as minhas garras, e fico lá no canto, quieta, torta e doente deste silêncio.

 

Katia da Silva

 

Retirado de Releituras

publicado às 19:09

Só nos livros o amor racha corações em relâmpago.
Só nos livros o amor racha corações em relâmpago.
Dinamene tomava vagares e quando atingia o sobressalto do sossego do acordo consigo mesma, o seu corpo mudava-se. De negro, fazia-se branco, de branco doirado, e depois moreno espesso. Talvez fora da ilha o tempo voltasse e Dinamene pudesse conquistar a efémera angustia de uma identidade de mulher. Tentara barcos e pássaros, as ondas e depois o fundo do mar, mas as águas e os ares devolviam-na repetidamente. Queria morrer e flutuava. Queria amar-se e mudava. Acordava sem saber de si, o sangue em forma de pedra, as pernas de âmbar, os cabelos de cedro velho e o rosto de mogno com uma mobília de palácio.
A mágoa das matérias – pedra ou barro – chorava em círculos pesados dentro dela. Se ao menos tivesse memória. Olhava e tudo o que via era beleza: encostas verdes carregadas de flores, uma cidade cor de rosa encostada a navios grandes que à noite iluminavam o mar a toda a volta. Mas nem estas coisas simples Dinamene chegava a nomear. Quando se aproximava das palavras o seu corpo transfigurava-se e era como se a vida recomeçasse de um princípio que ela já conhecia mas nunca chegava a aprender. De qualquer maneira as pessoas ficavam a contemplá-la. Diziam: "Coitadinha! Tão bonita!" e ela sentia um fio de água (ou de seiva, ou lama, ou ouro, dependendo do dia) descer-lhe pelo rosto. Sonhava que era uma rapariga como as outras, com uma só pele para envelhecer devagarinho e colecionar fotografias e remorsos. Havia no sonho uma voz fatalista: "Serás sempre uma árvore apaixonada pelos barcos, é essa a tua maldição", e quando ela queria perguntar porquê o sonho acabava e o espelho mostrava-a outra, cada vez mas condenada à eternidade, que é o sítio de onde todas as recordações desapareceram. Olhava para as barrigas redondas das mulheres cheias, efémeras, íntimas e distantes como brinquedos, olhava-as com tal ausência que as comovia. As mulheres pegavam na cabeça loura e negra de Dinamene e encostavam-na à pele estoirada dos seus ventres. O som monótono da mortalidade deixava-a com saudades de ser feliz.
Dinamene nascera um dia, experimentara o terrível prazer da precariedade. Às vezes, os olhos dos homens traziam-lhe um violento odor a lenha e leite, uma coisa que escaldava como sangue a jorros de pulsos abertos. Tentara rasgar a pele com uma tesoura funda, e de imediato ela se lhe mudara em granito escuro, brilhante. Meteu-se-lhe então na cabeça que a ilha havia de ter um buraco, um lugar por onde a queda pudesse ser definitiva. Há muitos anos, na escola, Dinamene aprendera a fugir de poços, grutas e covas porque no centro da terra ficava o inferno, mas agora ela não tinha qualquer ideia do que fosse uma escola. Correu a ilha toda muitas e muitas vezes, e quanto mais corria mais o seu corpo se afastava da terra. Pisava orquídeas e elas voltavam-se para o sol, como se em vez de pisadas tivessem sido acariciadas pela brisa do mar. Correu tanto que acabou por provocar os ventos e congregar as nuvens que andavam lá longe pelos continentes do mundo. A ilha pôs-se a baloiçar como uma alma confusa e entornou Dinamene para dentro de uma fortaleza de pedra roubada ao tempo dos piratas. A primeira sala parecia uma caixa de fósforos gigante, onde os fósforos desenhavam um labirinto de andaimes. Ao fundo da sala havia uma enorme mesa de madeira, daquelas de desenhar cidades ou meditar sobre o esplendor da verdade. Dinamene acabou por reparar que sempre que suspirava um dos fósforos caía e aparecia um desenho na mesa do fundo, que podia ser de frades ou arquitectos ou poetas. Queria tocar-lhes, mas os desenhos esfumavam-se, desfaziam-se em giz nas mãos dela. E o giz marcou o caminho da segunda sala, que era depois de uma ponte estreita, e quando ela entrou na segunda sala começou a nevar lá fora. Dinamene olhou para as mãos porque de repente o seu corpo fazia um barulho de livro desfolhado, e a pele desatou a encarquilhar-se muito depressa, até ficar cor de pergaminho, como os velhos ou os recém-nascidos. Não havia ali espelho que confirmasse a situação de Dinamene. De qualquer modo, Dinamene era imune aos espelhos. Só a água lhe reflectia os contornos, em dias de controlada luz. Deitou-se no chão, ao lado de uma espiral de flores que ali havia, e deixou-se cobrir pelas pétalas brancas e vermelhas, que lhe imitavam o frio da neve e o sabor metálico do sangue.
 
E então Dinamene lembrou-se. As imagens acudiam-lhe em tropel, recortadas em riso, assimétricas, numas cores ferozes de vida. Tinha um enorme cravo vermelho no cabelo em forma de estrela do mar e as suas mãos pequenas, pacientes, construíam uma cidade de fósforos. Crescera em volta daquela cidade. Quando acabou de crescer verificou que a sua cidade estava rodeada por uma verdadeira muralha de papel. Pegou na primeira folha e leu o que estava escrito. Amor, amor, amor, ah, minha Dinamene, eternamente. Soltou uma gargalhada e caiu do céu uma luz que se ateou aos fósforos e reduziu a cinzas a sua infância inteira. Dinamene decidiu esquecer. Coleccionou fotografias até inventar uma família que lhe ficasse bem. Às vezes deixava-se arruinar, às vezes bordava panos para os barcos que partiam. Quando se cansou de imaginar começou a copiar gestos e sentimentos dos romances. Não corria o perigo da seriedade, porque tinha um guarda-roupa faustoso dentro da cabeça. Nada era para sempre, nada merecia o empenhamento de uma existência, tudo fogo que arde. Era a única mulher que gostava de envelhecer. Entediava-a a ideia de acordar todos os dias da vida com a mesma pele lisa dos objectos sem passado. Amava as imperceptíveis corrosões do tempo, talvez por isso parecia cada dia mais nova. Ganhou fama de bondosa por alheamento, tão determinada se apresentava sempre a estudar a sombra das nuvens no mar. Intrigava-a a persistência que as pessoas punham nos actos, para o bem como para o mal. Por isso mesmo, desencadeava paixões furiosas. Troçava da persistência das guerras e dos sentimentos, vivia o poder absoluto da indiferença material. Nunca saíra da ilha, que é o mesmo que dizer que jamais lhe pertencera, porque tinha todos os sentidos pousados nas substâncias passageiras. Divertia-a o jogo das intensidades, donde começou a murmurar-se que mentia. Numa hora beijava, na seguinte enxotava e ria. Até que os limites humanos do desengano coincidiram com os limites físicos da ilha, e a colecção de apaixonados transbordou numa multidão de revoltados.
Dinamene foi convidada para uma festa no alto do monte, num palácio onde morrera um rei estrangeiro. Quando ela entrou, com um vestido da cor do Tempo, todos – homens e mulheres – suspiraram de desejo e pavor. Avançaram para ela com uma garrafa cheia de um líquido dourado e pediram-lhe que bebesse aquele néctar feito de propósito para ela. Dinamene bebeu e rejuvenesceu. Parecia que aquela bebida continha a fórmula da felicidade eterna. De certa forma, era verdade. Naquele jarro estavam as lágrimas de todas as pessoas que a tinham amado. De madrugada, a pele de Dinamene desatou a escurecer. Como se o corpo tivesse decidido preencher-lhe todos os espaços em branco da vida.
Foi assim que Dinamene passou da vida à arte, de ser humano a parecer literal: a alma encheu-se-lhe de estruturas precárias, o corpo esvaziou-se-lhe em sucessivas acumulações de cor. Até ao instante em que, deitada sob pétalas, Dinamene se lembrou de tudo e depois esqueceu-se e nasceu a chorar.
(Ilustração: Auguste Leroux - nu)
Retirado de Trapiche dos outros

publicado às 17:49

Preparativos de uma morte anunciada

 

 

Imagem da internet

 


— Onofre, acabei de pegar teu exame. O médico disse que você vai morrer em uma semana.

— Hein?! O quê?!

— Você morre terça feira que vem. Dia 25. Dia do soldado.

— Mas... que coisa horrível!

— Horrível por quê? Melhor que morrer, sei lá, no dia do Índio. No dia da Secretária. No dia do Ginecologista.

— Meu Deus! Vou morrer em uma semana e você me conta assim, na bucha, sem me preparar?

— Deixa de ser infantil, Onofre. Você não é prato de bacalhau pra eu te preparar.

— Uma semana... Eu estou chocado! Se bem que...

— O quê?

— Quer saber? De certa forma foi bom saber logo. Assim aproveito o tempo que resta. Vou viajar, beber e comer tudo que eu tenho direito.

— Aí é que está, Onofre. Você vai ter que fazer dieta.

— Dieta?!

— Pra emagrecer. O caixão que a gente tem não é seu número. Com essa barriga, você não entra naquele ataúde de jeito nenhum. Só entra de lado. Você quer ser enterrado de lado, Onofre?

— Claro que não! Mas... não dá pra trocar de caixão?

— É da loja do teu primo. Fui do médico direto pra lá, e foi o que ele me deu. Ele só trabalha com modelagem única e a gente não tem dinheiro pra comprar outro.

— Mas não é justo! Tenho que fazer regime na última semana da minha vida?

— E ginástica. E cooper. Talvez até balé — que só regime não vai dar conta dos 15 quilos que você precisa perder. Já te matriculei numa academia.


— Mas...

— Outra coisa. Não esquece de começar a convidar as pessoas pro velório.

— Eu?!

— É, ué. Não é você que vai morrer? Era só o que me faltava... você é que vai morrer e eu é que tenho o trabalho... Aliás, por falar em trabalho, arranja um bico extra essa semana pra conseguir dinheiro — pra pagar a dívida do mercado.

— Peraí... regime, ginástica, e agora... trabalho extra? Eu estou doente, estou cansado!

— Deixa de frescura, Onofre. Daqui a uma semana você vai ter tempo de sobra pra descansar. E se eu não pagar essa dívida, o seu Joaquim disse que me mata.

— Ele disse isso?

— Disse. E pode me matar em menos de uma semana. E aí eu vou ser enterrada no seu caixão. E você fica sem dinheiro pra comprar outro caixão. E aí você não vai ser enterrado. Vai ficar por aí, pelas ruas, em processo de decomposição.

— Meu Deus!

— Mais uma coisa. Você vai ter que visitar a tia Augusta.

— Ah, não! Visitar a tia Augusta não! Estou brigado com ela, você sabe disso.

— Vai na quinta feira. Já marquei.

— Assim não dá! Eu, pensando que ia passar uma semana boa, tranqüila, esperando pra morrer... mas nada. Já vi que vai ser um inferno. E se eu não for na casa da tia Augusta?

— Ela vai se sentir culpada por não ter feito as pazes antes de você morrer. E vai acabar morrendo de desgosto.

— E eu com isso? Não quero saber.

— Não quer saber? Acontece que está provado que uma pessoa leva, em média, uns seis meses pra morrer de desgosto.

— E daí?

— Daí que daqui a seis meses é o casamento da tua filha. E se a tua tia morrer, a gente vai ter que adiar o casamento. E se a gente adiar é capaz do noivo desistir de casar. Se ele desistir, tua filha vai ficar arrasada e pode sair por aí namorando o primeiro que aparecer na frente. E o primeiro que aparecer na frente pode ser um drogado. E tua filha pode virar uma drogada. E daí para o crime e para a prostituição é um passo. E daí ela pod...

— Chega! Eu vou visitar a tia Augusta!

— Ótimo.

— Que mais? O que mais você quer que eu faça nessa semana? Já tá perdida mesmo...

— Mais nada. Só cavar sua cova — pra economizar no coveiro, que coveiro está saindo pela hora da morte.

— Deixa eu anotar, senão esqueço... com tanta coisa... Cavar a cova.

— E não esquece de, no dia da tua morte, ir pro lugar do velório cedo. Pra morrer lá mesmo... pra gente também economizar no transporte do corpo. Vai de ônibus.

— Mas...

— De preferência atrás, agarrado no pára-choque, pra não pagar.

— É uma boa... No pára-choque. Só uma coisa. Uma dúvida.

— Fala.

— E se, por um acaso... eu não morrer?

— Tá maluco, Onofre? Depois desse trabalhão todo? Nem pensa nisso! Esquece essa possibilidade!

— É que de repente...

— De repente uma pinóia! Vê lá, hein, Onofre? Não vai me fazer a gracinha de aparecer no teu velório... vivo!


Elisa Palatnik, carioca nascida em 1962, desponta com uma das melhores escritoras de humor da nova geração. Começou sua carreira em 1988, como uma das redatoras do Chico Anísio Show. Hoje faz parte da equipe de redação final do programa Sai de Baixo.

O texto acima foi extraído do jornal "O Globo", onde a autora mantinha uma coluna. Como disse Nani no primeiro livro da autora , "A Paranóica e Mestre Pierre", Editora Record/1997, "Elisa, ciente de que o humor é o menor caminho entre duas pessoas, escancara frente a nossos olhos esse mundo absurdo à nossa volta. A surpresa de descobrirmos isso é o que nos leva a rir. Humor é a surpresa".
 Marcelo Madureira, do grupo "Casseta e Planeta" afirma: "No trivial variado dos seus contos pode-se provar o tempero do seu fino humor além de uma certa angústia judaico-carioca que fazem de Elisa a Woody Allen das Laranjeiras".

Mariana Ribas

 

 

Retirado de Releituras

publicado às 17:12

Honra Lavada

 

É uma história de 1945. Passou-se aqui em Três Lagoas. É verdade e dou fé.

Todas as manhãs a Maria Fumaça apontava detrás do morro e vinha apitando longamente.

Fazendo uma curva fechada, vinha rangendo até parar na estaçãozinha da praça.

Três Lagoas é uma cidadezinha pacata com uma só pracinha, onde todos os acontecimentos da cidade aconteciam – é lógico.

Naquele dia, entretanto, tudo foi diferente.

O trem chegou um pouquinho mais cedo e tão silenciosamente quanto possível, e isso quebrou a mesmice das pessoas que estavam, e apenas estavam, na praça.

Era bem cedo e nós tínhamos vindo com a charrete para fazer as compras do mês – o pesado – e iríamos ficar por ali, olhando, bisbilhotando...

Estávamos portanto, sentados à sombra das árvores e apreciávamos a igrejinha, os tico-ticos-do-serrado, as nuvens; com preguiça, fazendo hora até que o armazém abrisse.

Por isso, continuávamos parados, olhando aquele trem silencioso deslizando, entrando sorrateiro cidade adentro. Os fatos fluíram como se fossem um cinema ao ar livre.

O trem parou. O foguista mal respirava, com as mãos erguidas e o susto nos olhos. Saltou um homem cabeludo, de barbas compridas, que correu para sua casa ao lado, empunhando um Colt 38.

Por um lado entrava na casa um homem furioso com um revólver carregado; por outro, aos trambolhões, saía um jovem rosado, só de ceroulas, carregando num braço um monte de roupas, e um par de borzeguins no outro. Saiu feito um foguete, reto, em direção ao jardim da praça para cortar caminho. Mas as sebes recém-aparadinhas estavam em seu caminho. Elas tinham formato de torre de castelo, que ele ora pulava, ora roçava, o que mais o afogueou. Em seu encalço, em seguida, vinha o barbudo. Seus olhos saíam da órbita e ele chiava feito boi bravo.

Ouviu-se um tiro e mais quatro. No terceiro, já se viu, derrubado no chão pedregoso, o pobre rapaz. O perseguidor alcançou-o, descarregou mais uma meia-dúzia no mínimo, na nuca do traidor. Rápido como chegou, retornou suado e resfolegante para sua casa, ao lado da estação.


No chão, estirado, restou o rapaz, não tão corado, mas vermelho inteiro. Suas roupas espalhadas pela terra.

Na casa do homem traído, juntou o povo – para escutar a berraria que explodia do quarto, e, da janela, viam-se voar roupas, espelho, cadeiras, travesseiros e até uma imagem de São Benedito. Foi tudo se acalmando e ouviam-se agora só murmúrios, sussurros e beijinhos.

O defunto também recebeu visitas, mas foi por pouco tempo; cansados de sua imobilidade, um cinto aqui, uma calça ali, foram se dispersando. Então ficou só, não fossem umas poucas moscas teimosas. E sozinho esfriou.

Ao voltarmos à praça para esperar a charrete, resolvemos tomar um café para espairecer. Entramos no único bar da praça. Estava muito animado. Na rodinha do balcão, o chefe de polícia, o sargento, o assassino e vários amigos do copo.

- Pois é – terminava o matador – comigo é assim – tirava a espuminha de cerveja dos beiços.

Bateram tim-tim.

Apoiado por todos, os chifres podados, o caneco no balcão, suspirou:

- É, dei duro para defender a honra da minha Mariazinha, coitada!

E a honra de Mariazinha e a de todos ficou lavadíssima, em sangue e cerveja.

Cármen Rocha

(Sabor de Ambrosia)


(Ilustração: Aaron Coberly)

 

retirado de Trapiche dos outros

publicado às 17:42

MulherImagem do Momentos e Olhares

 

 

Chega. De antemão te peço desculpas por não insistir mais em caber no molde. Eu tentei, me esforcei, mesmo. Namorei sério, morei junto, amei para valer, criei a cena adequada, posicionei os personagens, e não. Suportei cobranças das mais descabidas, desnecessárias e antigas, perdi para a frustração e ganhei dela tantas vezes, segui à risca anos de terapia, mas não consegui. O desejo de dar a passagem nunca nasceu em mim. Não é pessoal, não tenho nada contra quem és ou quem te tornarias. Estou certa de que serias alguém decente e realizada apesar da minha proximidade. Tu, do lado de fora, não me assustas. Meu fracasso está no meio do processo. Minhas mãos suam e algo na região da barriga se retorce quando te imagino ganhando o mundo, descolada de mim. Sofro de pavor, de agonia, de medo de morrer com dor, urrando. São pensamentos assim e outros piores que preenchem qualquer espaço vago que haja para a vontade da maternidade.

As vezes sinto que não seria segura a nossa convivência, pelo menos nos primeiros anos. Tenho tido um sonho recorrente, que me atordoa durante os dias que seguem o episódio: sou eu te olhando bem de perto enquanto dormes, meus braços apoiados no limite do berço, sou eu absolutamente feliz te contemplando. O sol da manhã ilumina o quarto e poucos de vento sacodem a cortina de voil branco. De repente, o calor me invade pelas tripas e sobe até a nuca, entendo que estou prestes a perder o controle e embora queira parar, é outra quem me comanda. É meio que possessão, estou em mim, mas me divido com esse duplo meu, uma louca. Grito forte que a outra não ouse, paraliso, e ela me ignora. Desliza as minhas mãos e age, não posso impedir. Apertamos o teu pescoço até que o contorno da tua boca de recém-parida escureça e teu choro acabe. Então, acordo desnorteada, querendo esquecer, mas é impossível. Não és tu o que me assombra, entendes? 

Difícil de admitir é que a minha parte insana talvez não more lá, em uma casa onírica. É provável que já tenha se mudado de mala, cuia e chinelinhos para a vida real. Tem sido rotineiro vê-la saltar e complicar as coisas. Faz pouco, surtamos. Repetiram aquela pergunta desgraçada, para a qual não sei dar a resposta que exigem com olhos e sorrisinhos maliciosos, “e quando vem o bebê”, me torturam. Que tanto querem saber, afinal? Ela não virá. Não virá. A informação me sai entre dentes. Não sei de onde tirei a certeza de que, caso viesse a gerar, meu broto seria mulher como eu. Me julgam pelas palavras. Dizem que me referir a ti assim já é meu corpo e minha alma querendo a tua presença aqui. Agora. Reparei que meus ossos, seios e cabelos estão diferentes e reconheço que o relógio biológico avança, pedindo também explicações. Perdoa, filha, por não te deixar me atravessar. Por favor, se não puderes entender, minimamente aceita que meu conflito escancara uma covardia tremenda. De um jeito torto, já te protejo, e quase me convenço que isso, por si, vai dando à luz uma mãe. É a melhor que podes ter. Por hora, sigo na combinação anticoncepcional/camisinhas, com todo meu respeito a ti. E a mim.

 

Andréia Pires

 

 

Retirado de Samizdat

publicado às 17:05


Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D